Architecture with architects

ARQUITETURA POPULAR COMO BASE PARA REGENERAR A HABITAÇÃO DAS COMUNIDADES DE BAIXOS RECURSOS E O MEIO-AMBIENTE EM ZONA URBANA. ESTUDO DE CASO: MAPUTO E OS TERRITÓRIOS DE TSWA-RONGA E CHOPI.

*é a parte do Projeto Tese realizado na Faculdade da Arquitetura da Universidade do Porto
** an English version would be published in an separate article

Mundo em Crise

Nós, ocidentais, temos a ilusão de omnipotência. Desde sempre[1] estamos a tentar subordinar o Planeta (e os seus recursos) às nossas necessidades, de maneira excessiva e comodista. O mundo contemporâneo caracteriza-se por desigualdades sem precedente na história. A concentração de poder e dinheiro que acentua-se cada ano. A nossa arrogância é tão grande que inclusivamente denominamos a última época geológica — o Antropoceno.

Fig. 1. Limites planetários e domínio de ecossistema

O Stockholm Resilence Center é um centro de investigação pluridisciplinar do ecossistema que procura as relações entre a sociedade e o meio-ambiente, e monitoriza as mudanças e as tendências do ecossistema. Desde 2009 que adverte estar-se a ultrapassar a capacidade do ecossistema (a propriedade de autorregeneração) e a cruzar os limites do Planeta em todos os domínios conhecidos. Os domínios mais frágeis são os da biodiversidade e da circulação de bioquímicos, os quais viram já os seus limites ultrapassados, tendo-se atingido um ponto sem retorno possível, nãos e podendo mais regressar a um estado de equilíbrio. Outras dimensões (como por exemplo as das alternações climáticas) ultrapassaram igualmente a sua capacidade de regenerações, significando que esta não é mais atingível. Já entre 1960 e 1978, Buckminster Fuller (1895-1993), arquiteto e visionário americano, dirigiu um estudo no World Resources Inventory Center na Southern Illinois University com o objetivo de investigar sobre os limites dos recursos naturais.[2] Ao conhecer os limites, Fuller pretendia enfatizar que a industrialização excessiva do pós-guerra poderia levar a que fossem ultrapassados/aniquilados.
O sobrecarregar do Planeta tem sido exercido por várias gerações.


Graças ao desenvolvimento e democratização da ciência, a consciência coletiva e o conhecimento geral crescem. Consequentemente, nos últimos meses e anos testemunhamos múltiplos movimentos de cidadãos que abandonaram o medo de um futuro distópico: Occupy Wall Street, Podemos, Friday for Future, Extinction Rebellion, para mencionar somente alguns. Carlos Martí Arís (1948-2020), arquiteto e crítico espanhol, sintetizando este momento particular da história contemporânea, recordando o impacto humano:

As relações entre natureza e cultura mudaram profundamente nas últimas décadas. Isso se deve em grande parte ao facto de que uma das revelações mais surpreendentes que o século XX nos trouxe foi a evidência de que o planeta em que habitamos é muito mais frágil do que o que tínhamos, até recentemente, assumido e que somos nós humanos, com a nossa falta de cuidado e arrogância,
a principal ameaça.[3]

Martí recorda que somos a espécie responsável pela ameaça ao Planeta e que ainda não queremos acreditar em tal.

A história da humanidade está marcada por atos de desobediência e inconformismo. O tempo é marcado por revoltas, insurreições e pronunciamentos. Histórias pessoais constroem-se em torno dos nossos rebeldes contra normas sociais ou tradições obsoletas. Emil Cioran (1911-1995), filósofo romeno, no seu livro La tentation d’exister[4], enfatiza que ser ocidental implica ser rebelde. Não obstante, a desobediência cidadã na economia de escala e no mundo globalizado não é suficiente. Os atos individuais e privados não têm uma influência relevante. Físicos da atmosfera, biólogos e geólogos apelam a que todos os profissionais atuem radicalmente e rápido. O impacto profissional traz um impacto mais Também os arquitetos., porque a ligação entre a crise climática, arquitetura e a construção é direta: o ambiente construído é responsável por 40% do uso de energia e destruição dos habitats naturais.[5]

 
A fonte da crise tem início na Revolução Industrial, no século XIX, momento a partir do qual se opera e assume um corte entre a arquitetura e natureza, abandonando-se uma relação de equilíbrio e harmonia. A Trienal de Arquitetura de Oslo, de 2019, indicou o degrowth (decrescimento) como referência para todas as decisões e ações, no campo de arquitetura, no futuro próximo.

Atrás desta palavra esconde-se uma mudança radical que abrange todos os atores e elementos do processo de desenho e construção. Hoje, coloca-se a oportunidade para dar um passo atrás.

O crescimento económico foi e é a maneira de eleição de medir o desenvolvimento dos países. O desenvolvimento que, no geral, na sua essência, procura melhorar as condições da vida, ampliar o conhecimento, ajustar a forma (no caso de animais ou plantas, por exemplo) para otimização do desempenho, está a reduzir-se ao desenvolvimento económico, um campo unidisciplinar.

A obsessão pelo uso dos indicadores económicos, por exemplo o PIB (Produto Interno Bruto), como a única referência para avaliar o êxito
(o desenvolvimento) de um país é absurdo. Assim o crescimento não tem fim, nem objetivo e no final serve só para multiplicar a mercadoria[6]. Como explica Kate Raworth (1970-)[7], economista da Universidade de Oxford, vivemos um momento para ‘pousar o avião do crescimento’ e pensar no futuro comum. No Doughnut Economy, Raworth desenha uma imagem complexa de relações sociais que impactam a vida quotidiana e o futuro do Planeta. A pausa que estamos a exercitar na forma radical e descontrolada desde março de 2020 prova que abrandar é possível. Mas a pausa pode ser  programada de forma a evitar as consequências inesperadas. Os limites planetários (tal como demonstra o Stockholm Resilinece Center) e os limites socias indicados por Raworth definem o espaço do desenvolvimento seguro.

limites planetários
espaço do desenvolvimento seguro
limites socias

O Futuro que já se procurava antes, por exemplo em O Relatório Brundtland, conhecido também como Nosso Futuro Comum, introduziu a palavra ‘sustentável’ no dicionário quotidiano. As indicações do relatório não entrarão em vigor na forma popular. O relatório indicava os caminhos e os métodos que se deveriam tomar para que o crescimento atual não impactasse o futuro de forma negativa, isto é, fosse um crescimento responsável.

O desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir as suas próprias necessidades.[8]

A crise, ou as crises, que enfrentamos implicam repensar a arquitetura — porquê, onde e como construímos? Cada mudança do sistema ou revolta impõe de ações radicais. Essa rebeldia também implicará mudanças nos costumes, nos materiais e nos métodos construtivos. Chegou a hora
de decidir se queremos correr até ao abismo fatal ou dar um passo atrás
e seguir. A dar um passo atrás incorremos num perigo similar àquele
de William Morris (1934-1896), arquiteto e desenhador ativo na viragem do século XIX. Morris incentivava o movimento de Arts & Crafts, artesanato e produção local ainda que, paradoxalmente, o seu trabalho tenha estado na base da produção em massa.

O caso de Morris é o mais conhecido na história universal da arquitetura. Contudo, noutros lugares é possível que se possam encontrar  múltiplos casos de leituras opostas dos trabalhos da viragem do século XIX para
o XX. Em Portugal, destaca-se neste âmbito Raul Lino (1878-1974)[9]. Como escreve Rui Jorge Garcia Ramos (1961-)[10], arquiteto e investigador português, ao regressar a Portugal Lino tomou a posição de ‘ser inovador e anti-Moderno.’ Principalmente interessava-lhe a arquitetura portuguesa, tendo por isso percorrido o território continental de Portugal em busca da arquitetura tradicional. O seu inquérito cristalizou-se no livro A Casa Portuguesa[11] que se tornou no ponto de referência da arquitetura popular em Portugal. Até aos anos 1970 os seus trabalhos foram vistos como antiprogressistas. A releitura do trabalho de Lino originou o ensaio
de Pedro Vieira de Almeida (1933-2011), o arquiteto português, ‘Raul Lino, Arquitecto Moderno’ que acompanhou a Exposição Retrospetiva da Obra de Raul Lino. De acordo com este, o trabalho de Lino pode ser lido também no contexto de arquitetura do lugar, pertinente ao seu território, sendo essa pertinência denominador comum da arquitetura da nova modernidade portuguesa de Keil do Amaral (1910-1975), Fernando Távora (1923-2005) ou mais recentemente, de Álvaro Siza (1933-). Ou seja, sem querer, Lino construiu a base para o movimento moderno em Portugal.

Os trabalho de Lino é transcendente neste texto, trazendo a noção de olhar para o passado, mas neste caso na procura, e não contra, a inovação.


[1] Já no texto fundador da cultura Cristã, e de facto Ocidental, o ‘Antigo Testamento’, lê-se: ‘Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra’.

[2] FULLER , Buckminster. 1963. World Design Science Decade 1965-1975

[3] MARTÍ ARÍS, Carlos. 2005. La cimbra y el arco, p.55

[4] CIORAN, Emil. 1956. La tentation d’exister. Paris: Gallimard, p.12

[5] IPCC Report 2019, Climate Change and Land, p. 41

[6] No contexto da Era da Informação emerge a nova mercadoria — a mercadoria digital, que pode ser replicada sem limites. Issa mercadoria amplifica o efeito da economia de escala e os possíveis ganhos.

[7] RAWORTH, Kate. 2018. Doughnut economics: seven ways to think like a 21st-century economist, p. 217

[8] BRUNDTLAND COMISSION. 1987. Our Common Future, p. 41

[9] arquiteto português formado em Inglaterra, graduado no Kunstgewerbe- und Handwerkerschule Hannover (Escola de Artes Decorativas e Artesanato) em Hannover. Depois de se graduar, Lino fez uma prática profissional no gabinete de Albrecht Haupt (arquiteto e cofundador do Museu de Artes Decorativas de Hannover). Tanto no meio académico como na prática, os seus interesses (a sua revista favorita era ‘The Studio’ do movimento Arts and Crafts onde publicava, entre outros, William Morris) conferiram-lhe uma direção muito definida.  Mais sobre a formação de Lino em: SCHAU, Peter. 2017. ‘Raúl Lino 1879-1974 Ein europaischer architekt zwischen tradition und moderne’ em HAENSEL, Sylvaine. Mitteilungen Der Carl Justi – Vereininung

[10] RAMOS, Rui Jorge Garcia, 2011, “Disponibilidade moderna na arquitetura doméstica de Raul Lino e Ventura Terra na abertura do século XX”, em Marieta Dá Mesquita (coord.), Revistas de Arquitectura: Arquivo(s) da Modernidade, , p. 78-111.f

[11] LINO, Raul. 1929. A casa portuguesa.

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